Corações fronteiras
poesia para tocar com as mãos
I.
ouço preces sussurradas ontem
tocarem as frias mãos do hoje
que já feridas se estendem firmes
segurando uma gaiola partida
donde fugiu pássaro branco
sem ruminar caminho santo
somente ruínas queimadas e cinzas
aninhadas ao coração de Pompeia
fez seu ninho na janela
onde entraria o sol
se ainda fosse ontem
migrou em dezembro
sem se despedir
como se fosse hoje
II.
rosa nascida em palafita
no último equinócio d’outono
perfurou-me a peito aberto
deixou encantado em tempo áureo
munido com feroz solidão
aprazível sentimento salubre
que amotina o sangue da fronte
rompendo os vasos de minhas raízes
eis o canto encerrado, ó liberdade
causa e consequência de regozijo
sonho retorcido em lábios tristes
eis o canto sagrado, ó liberdade
amante secreta da violência
és sua filha mais cínica
III.
e então o barro condenou a carne,
se alimenta o pasto antes da família
esmorece o semblante sertanejo
canibalizando a própria fé
no galope seco que quebra o crânio
ouço também o carcarejar do galo,
penso ser sofrimento ou má digestão
em ambos os casos acordo sôfrego
conto as gotas de chuva caindo
atento às memórias colecionadas no paladar
aquosa lembrança, dois corpos despencam
percorrendo o mesmo caminho do rio
e se condena meu ser ao sortilégio da existência
derroca também a criança abortada em meu ventre
nunca nutrido, nunca desejado, nunca fugido
morre infanto antes de jesus cristo voltar dos céus
mãos
vi as suas lindas mãos se recolhendo próximas ao peito, fazendo esforço para proteger o coração do frio, pensei. observo que o seu dedo indicador na mão esquerda é torto, acho que se deve ao seu passado como jogadora de handebol. existe uma energia violenta e feminina nas partidas amadoras que seria capaz de derrubar o imperador gengis khan, talvez impedisse oda nobunaga de destruir tantos templos budistas e até acabasse com a invasão de canudos. ainda assim, repousam os detalhes mais gentis em suas mãos segurando a taça de vinho, apoiando-se na janela do carro, abafando os meus gemidos. há uma firmeza no seu toque que se iguala à precisão de uma alfaiate ou cirurgiã.
já as minhas mãos, que sempre seguraram o peso da minha existência, são esguias, traiçoeiras e, para alguns, femininas demais. não sei, acho-as lindas quando estou escrevendo. vejo as unhas crescerem, esqueço o dia e conto nos dedos quando será a minha próxima folga. minha mão esquerda é maior que a direita; por inveja, a destra determinou-se a ser mais hábil no cotidiano, por isso tem mais calos e feridas. já a esquerda lembra-me a delicadeza que reside em ter mais atenção ao segurar panelas quentes, bebês pequenos e a sua mão quando sente medo.
enfim, as mãos.
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