Semana passada quase destruí um liquidificador colocando quatro pedaços de macaxeira dentro dele. Porra, é tora né?! Não tem fome de tubérculos que justifique a ansiedade de meter toda a macaxeira que tinha em casa enfiada naquele eletrodoméstico. Foi gula, admito. Talvez esse pecado represente bem o tamanho da minha fome ultimamente. Morar sozinho evoca novas experiências, até as coisas mais banais parecem diferentes, fazer café, ler um livro, ouvir música, chorar no banho, etc. Dentre todos esses acontecimentos, o resultado da minha estupidez não costuma falhar em me surpreender.
O que, em partes, não é de todo o mal. Sou o meu próprio entretenimento quando estou ocioso e, pela primeira vez em duas décadas, consigo reconhecer que a minha própria companhia pode ser tolerável, divertida até. Ruim é ter que arcar com o prejuízo das minhas decisões questionáveis. Dessa vez, não darei adeus ao liquidificador. Ele ainda funciona, só precisa de ajuda no processo, e nisso tenho que admitir que está até mais parecido comigo.
Passar por esses episódios do ridículo humano te faz perceber a engenhosidade que a gente desenvolve para que as coisas continuem a funcionar. Colocamos fita naquele aspirador que está partido na base, ele ainda funciona, só precisa de mais cuidado. A torneira da pia precisa de cola quente para se manter fixa. Até mesmo um lápis que partiu ao meio, se coloca uma fita para resolver. Durex que te abençoe!
Seja para consertar algum objeto com urgência, ou quando nossa mente nos convence a empurrar uma relação ruim por causa da ilusão de conforto. Não importa que essa pessoa precise pisar em cada sentimento meu antes de falar que me ama. Não importa que ela tenha jogado na minha cara que não aguenta mais ouvir minha voz quando acorda. Quando chego em casa ainda tem alguém me esperando, ainda é confortável aqui, não?
O desconforto conhecido pode parecer melhor que o sentimento desconhecido que vem do movimento de mudança. Só que esperar sem fazer nada também é uma escolha. Ali, naquele coliseu chamado cozinha, havia eu e aqueles pedaços mutilados de macaxeira, não podia deixar um trabalho feito pela metade. O meu almoço estava em jogo.
Trabalhei com as mãos, literalmente tive que usar os punhos para esmurrar o restante daquela macaxeira. Daí fez mais sentido a expressão gastronômica batatas ao murro, só não pensei que era tão literal assim. Bom, finalizei com uma boa espremida utilizando uma colher de sopa; agora, eu tinha apenas os moídos daquela deliciosa raiz que viria a ser o meu A-risotto improvisado.
Coloco na panela um pouco de manteiga e alhos picadinhos até dourar levemente. Depois, misturo a macaxeira até homogeneizar tudo e acrescentei o sal. Fui adicionando leite aos poucos enquanto mexia com a colher, sentindo o ponto para não deixar ficar aguada. O queijo é o toque final para dar o gostinho que amo a receita
(toda minha simpatia e respeito aos intolerantes à lactose.)
Por fim, já havia deixado o arroz separado em outro recipiente e o misturei ao hercúleo purê de macaxeira. Com muita luta, saio vitorioso daquele embate, e a satisfação deste prato traz um sabor inexplicável àquela refeição. Talvez tenha sido um dos melhores almoços desse ano, com todo respeito à minha mãe e ao seu, também suado, feijão preto com picadinho de carne. Não teve foto da receita pronta, mas deixo o imaginário de vocês falar por si só.
Criptografia
dizer uma palavra
não é o mesmo que falar;
assim como falar
não é o mesmo que sentir;
falar uma palavra
não é o mesmo quer escrevê-la
e escrever
opõe-se a engolir;
eis aquilo criptografado
entre vogal e consoantes
signo ambíguo, partido
bifurcado em tal medida
que Eu, te amo
& Eu te amo!
não são o mesmo,
amor;
palavra não é sentida
quando vira sina.
ofício direto, regra e contra medida
para resgatar a causa e efeito
o verbo é tempo.
há tempos
em que escrever não é só palavra.
nunca é, diria ao poema:
só palavras. ponto.
escrever não será o mesmo
sentido provocado no ser.
imitará o erro crasso
nunca há de ser o aço
sobre a pele da nuca
e o calor vermelho
escorrendo no asfalto.
nunca será o silêncio.
bendito, ausente no som
particípio tempo afiado.
duas almas em sinfonia
aos ocos ossos das palavras.
A louça que me lava
lá pelas tantas da madrugada
atravesso o reino das panelas,
talheres e pratos sujos; também
os potes oleosos e frigideiras frígidas
cujo toque gera arrepios espinhosos.
nosso encontro rotineiro traz paz
momentânea fricção entre objeto
mão sobrepõe sabão e esfrego
esfrego, esfrego, esfrego
repetitivo, eu sei
mas é bom lavar.
acalma o homem que salta
um
dois
três
abismos, todo dia
lavo a culpa estranha
cada gota estrangeira
contém o frio de geleiras
parte a dor tensionada
músculo do corpo coibido.
A clareza misteriosa da contemplação
descendo o ralo de uma pia, e seus restos
mortais, definem o que há em nós
após a vitória da refeição, a louça
limpa o custo do prato vazio.
Corrente d’águas frias
calombos, cortes, calos
copos de vidro, plásticos
dias difíceis, dias solares
pensamentos intrusivos
escorridos em aço inox.
e o pavor de esquecer
posso respirar por um instante.
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