Sem decoro
esses recortes breves são a vida / são a vida esses breves recortes
Demoro com o Tempo caminhando ao meu lado tentando fazer uma reconciliação com o nosso laço, estreitamos relações nos últimos anos e somos parceiros muito mais interessantes. Escrevemos juntos essa jornada como quem costura as próprias roupas todas a mão, os dedos sentem algumas pequenas alfinetadas, limpamos o sangue no algodão antes de continuar o trabalho até ver a peça final.
A peça final pode nunca chegar a ser usada, vestida ou sentida na pele. Ficar enciumada com a pele e procurar traças. Acabar destinada ao pó e poeira de uma gaveta, acho que mesmo as angústias merecem alguma atenção. Sinto essa dificuldade em abrir mão dessas coisas já feitas pelas minhas mãos, elas vão se espalhando por aí nos pequenos espaços do meu quarto, em bolsos pendurados nas calças jeans, presas entres os dentes como pedaços de feijão após o almoço.
O Tempo acaba sendo encarregado de dar outro sentido para as coisas muito melhor do que eu, assim, mesmo a tristeza vai sumindo daquele papel molhado pelas minhas lágrimas. Ou a raiva se despede dos cacos de vidro. A natureza de todas as coisas é o fim, e tudo começa pelo fim de alguma coisa.
prelúdio
andei apaixonado por retalhos
pequenos atalhos
momentos pacatos
risos inatos
destinos tracejados
constelações distantes
a olho nutua estrela-morta-em-instante
colisão luzente
tapume frígido
dois rios
dois milênios
apenas vinte seis anos
para dar conta de tudo
não sou tudo—é isso
sou retalho
Efeitos colaterais
Surge então uma necessidade abundante de deixar ir os tantos pedaços que foram ficando para trás nessas passagens dos últimos meses, e não há outro jeito, porque este é o único que reconheço como verdadeiramente efetivo para dar fim a essa vontade de colecionar esses trechos escritos, desenhados e sentidos.
Uma forma mais simpática de dizer que não aguento mais fingir que não sou assim, um grande amontoado de retalhos nunca inteiros, vários fragmentos que vão se amalgamando no que é esse homem-ser.
“…é também medo de si mesmo, um medo do que ele é” (BESSON, Philippe. mentiras que contamos. p.58)
Por isso, agora convido vocês a leitura de alguns poemas (in)completos, textinhos e outras coisas mais:
I. condomínio
aos 12
interrogoaos 18
exclamoaos 21
plásticoaos 25
rio
II. luna
la gravidad de los astros
los impedira luz
luna
sola
III. sem título
sob crucifixo
sem fé não se cria Deusfrias grades catedrais
ponte safena céu de ouro
ateu
IV. sem título
O tempo não faz julgamento
tão frequente discordamosvou correndo apressado
posso perder o passo
chegar ao atrasouma hora se passa
continuamos discutindonão parece cômico (?)
esse distinto sabor
quando observo o céu
recém pintado azule no fim
a maresia permeia os móveis da casa
Abrigo
Não olho para o mundo ao meu redor. Não noto as pessoas atravessando o sinal apressadas, ou os xingamentos murmurados baixinho como se o inferno estivesse localizado neste pedaço de terra no litoral. Estou caminhando pelas ruas de uma cidade no interior da França depois de bebericar duas taças de vinho. O ar está úmido e frio, impregnado com o odor de cigarros. É quando noto dois jovens conversando sob um toldo em frente a uma pequena mercearia, me aproximo tentando escapar da garoa.
Não quero parecer intrometido então apenas os cumprimento com um breve aceno enquanto encontro abrigo sentado em um banco de madeira escura, repouso meu corpo encostando na parede finalmente expirando o ar que parecia ter comprimido em silêncio na tentativa de não atrapalhar a conversa. Isso me lembrou do motivo pelo qual sou apaixonado pela literatura, como desde novo a fantasia sempre forçou a minha mente a ir para outro lugar. Me pergunto se não é esse o motivo de ter começado a escrever meus primeiros poemas.
Sinta-se a vontade para deixar seus pensamento e comentários sobre o texto, ou qualquer outra coisa que ache necessário!



